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Desabafo:
decibéis são medidores
da qualidade musical? Divulgação 
Por Junia Teixeira
Manhã de sábado. Dia de
descanso ou, pelo menos, deveria ser. O sol não está brilhando (aliás, depois
da chuva de granizo que arrasou a cidade, a maior estrela anda meio escondida,
sem graça, meio envergonhada). O dia cinzento fecha ainda mais o tempo com o
som que me desperta abruptamente, parecido com trovão desafinado ou terremoto
relinchento.
Carros com portas abertas, em
especial o porta-malas são propagadores das músicas Funk nacional, com suas letras
esdrúxulas, de mau gosto, com vozes desafinadas e um ou dois acordes para
servir de referência a tal “arte musical”. Os promoters exibem seus 20, 30 ou sei lá quantos auto-falantes como
se o tamanho do equipamento fosse suficiente para determinar a qualidade do
som.
Foi nesse instante que pensei:
por que ninguém compra um equipamento desses para ouvir Chico Buarque ou Elis? Mais
que isso, por que não é costumeiro ouvir Marisa Monte, Maria Betânia, Mozart ou
Milton no último volume? E olha que o que não falta para esses músicos são as boas
letras, diversos acordes, criatividades e afinação.
Simples! Não combina. Não há
necessidade. Impossível imaginar alguém gritando enquanto escuta “Desafinado”
ou “Copacabana”. Imagine só, um indivíduo, num sábado pela manhã, lavando seu
automóvel, com o som no último volume tocando “Rosa”, dançando sensualmente ao
som de “Marcus Viana”.
Talvez, para saber apreciar uma
boa música seja preciso, antes de tudo, um ouvido sensível a ruídos, barulhos,
gritos e exageros. Talvez a sensibilidade seja harmoniosa com o silêncio, com o
pensamento.
Duro reconhecer isso, mas
talvez... é... talvez, para gostar de poposudas, melancias e outras frutas,
créu e companhia seja imprescindível um bom nível de surdez, que colabore, que
haja como filtro, diante de tanta baboseira e barulho. O mais difícil não é
ensinar as pessoas sobre boa música, sobre arte e sensibilidade. O mais
complicado é acabar com a surdez, a falta de reflexão e a cegueira.
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